Capitulo IX – Achas que vou ter saudades?
A decisão, essa…, teve várias fases, que eu classificaria como: a ideia, a tomada de decisão, a acção, a consequência, e por fim… a dolorosa tomada de consciência.
A ideia:
- Este ano quando formos para a neve, levamos ou deixamos a Mafalda?
- Ela foi o ano passado, porque é que deveria de ficar este ano?
- Ela não vai fazer ski, não aproveita, não se vai lembrar, e para mais depois nós também vamos ficar limitados e não aproveitamos.
- Lá isso é verdade,… sim acho que se diverte mais se cá ficar com os avós. E achas que ela vai chorar?
- Um pouco! Está muito apegada a nós. Até lhe vai fazer bem, sabes.
- E saudades? Achas que vai ter saudades?
- Claro, ainda é pequena, e muito dependente de nós. Mas nós telefonamos e falamos com ela todos os dias, não te preocupes, também é só uma semana. E para mais precisamos de dormir, descansar um pouco, como ela anda com os sonos trocados e a acordar de noite, fazia-nos bem sabes..
- Então está bem. Marca tu os aviões que eu marco os hotéis.
Tomada de Decisão:
- Já reservei o hotel, pelo sim pelo não, como não estou muito confortável com a ideia mandei colocar o berço no quarto.
- Fizeste bem, olha, já comprei os bilhetes de avião. Pelo sim pelo não, não fosses tu mudar de ideias, comprei sem contar com a Mafalda, o melhor e acostumares-te à ideia que este ano vamos sem ela. Depois quando for maior logo se vê.
Acção:
Esta poderia ser subdividida em fases, e sem duvida começa com a partida a caminho do aeroporto. Ainda nem 2 kilometros haviam sido percorridos, e enquanto a Mafalda dormia calmamente na sua cama em casa dos avós, havia lágrimas de saudade que escorriam pela face.
- Tem calma, são só uns dias e vais ver que é bom para descansar.
- A CULPA É TUA, NÂO TINHAS NADA COMPRAR OS BILHETES DE AVIÃO SEM ME CONSULTAR.
- Não achas que que estás a ser injusta?
- ACHO! MAS A CULPA É TUA NA MESMA…..Tens razão, isto já passa.
Depois, deste ponto em diante, foram 7 magníficos dias de descaso, e sem qualquer ansiedade.
- Olha…
-Sim?
- Coincidência, uma criança da idade da Mafalda no aeroporto. Achas que ela ainda está a dormir?
Mal o voo aterra em Genebra, e ainda antes de levantar as malas e os skis da bagagem seguiu-se a habitual chamada para casa a dar conta da viagem, e de que tudo correu bem.
- A Mafalda já acordou? Dormiu bem? Perguntou por nós? O que ela está a fazer?
- Está tudo bem, e vocês onde estão?
- Chegamos agora a Genebra, está tudo bem, Mas não respondeste às minhas perguntas? Aconteceu alguma coisa? Ela está a chorar?
- Esta tudo bem, ela está a brincar com a tua irmã, e satisfeita da vida. Quando acordou perguntou pela mãe, mas mais nada.
- Mais nada? Como está tudo bem? Ela não está queixosa, nem molezinha, pois não?
- Não, porque perguntas isso?
- Não perguntou nós. NÃO PERGUNTOU POR MIM!!! Pergunta-lhe se ela quer falar com o pai, passa-lhe o telefone.
- Mafalda, queres falar com o Pai?
- Nãaa (aliás esta marcação de posição foi uma constante ao longo dos 7 dias que se seguem).
Depois é claro que existiu, um novo impacto. Após 3 horas de viagem de comboio, e depois de me cruzar com enumeras criancinhas da mesma idade, chagamos ao hotel e fizemos o check-in. Papeladas á parte, entramos no quarto, e é claro, lá estava, o berço que ninguém mandou retirar do quarto.
- Estás a ver! As camas que eles usam para os bebés até são jeitosas. Eles têm um nível de serviço…
Convém referir que o Hotel era o mesmo onde cinco anos havíamos passado a nossa lua de mel, como tal estávamos plenamente consciente do nível de serviço.
-Eles já cá vêm buscar o berço.
- SIM, EU SEI!!!
Depois foram sete dias, onde todas as crianças que se cruzam connosco nas pistas e na vila de Gstaad, nos fazem lembrar a Mafalda…
- Olha, para o ano a Mafalda vai ser assim?
- Que giro que eles ficam naqueles fatos!!! Aposto que vão ficar muito bem à Mafalda.
- Eles aqui começam cedo. Quando a Mafalda tiver três anos, vamos também inicia-la no ski.
- Este chocolate quente é muito bom!!! Pena que a Mafalda não pode ainda beber leite inteiro nem chocolate.
Mas a parte mais dolorosa, é ao jantar ver as famílias reunidas em torno daquelas mesas, com as crianças a chamar pelos pais, a interagir com eles. A nós resta-nos o telefone e descobrir as novidades que nos iam sendo relatadas á distância na evolução da pimpolha.
Por um lado descemos as encostas das montanhas e distanciamo-nos do dia a dia. Por outro, todos os pormenores que nos rodeiam, trazem a memória aquele meio palmo de gente. Mas no fundo, penso que aqueles dias acabam por ser bons e importantes para nós que fomos, e para ela que ficou.
Resta apenas uma aventura, que começa na noite antes do regresso. E a aventura, é exactamente “ O regresso”.
- Como será que ela está?
- Melhor que nós. Pelo que dizem anda lá de um lado para o outro, sem grande preocupação, de tempo a tempo pergunta por nós.
- Como achas que ela vai reagir. Quando nos vir?
- Não sei, o melhor e irmos com calma para não a stressar.
- Sim eu sei.
Depois seguiram-se 3 longas horas de comboio, e mais duas de avião.
- Se quiseres vai andando lá para fora, para ir ter com a Mafalda, enquanto eu espero pelas malas.
- Não, deixa estar, eu espero aqui contigo pelas malas.
- OK, mas então tira esse sorriso de ansiosidade da cara.
- Não percebo…
- Tens a certeza que não queres ir andando.
- ……………………….Não. Eu espero.
Após os trinta minutos á espera das malas e dos skis, o inevitável aconteceu. Á medida que caminhávamos para a porta de saída, e que a adrenalina subia, batia forte no peito, o nome da pequerrucha, chamando intensamente pelo seu nome.
Para quem conhece o Aeroporto de Lisboa, existe uma porta em vidro que separa os que partiram e agora chegam, daqueles que cá ficaram. De tempos a tempos essa porta abre-se, deixando passar os sons de um mundo para o outros, bem como deixando que por alguma nesga entre a multidão que regressa junto dos seus, posamos por breves instantes espreitar para o nosso futuro, e procurar.
- Paiiiiiiiiiiii!
- Pai???? Eu juro que ouvi pai, antes da porta se fechar. Era a Mafalda.
- Onde???
E novamente a porta abre-se….
- Ali, bem de frente!
- Pai!!!!!
Neste momento, a mãe essa transforma-se, como se algo que lhe saia do peito a fizesse reagir apenas por impulso, descontroladamente, enquanto eu dizia-lhe:
- Tem cuidado com o senhor, olha que lhe atirar a malas ao chão!!! Ainda bem isto não é uma estrada, se não… tinha atropelado um carro.
Depois a Mafalda, fintou-nos os olhos, calou-se… Neste momento a mãe já a tem no colo. Eu com a minha calma, mundialmente reconhecida, já havia abandonado os skis e as malas, e juntei-me ás duas. E nesse momento, …, um pequeno beicinho, sem lágrimas, o olhinho para baixo, e vi o nervoso miudinho que a percorreu quando nos viu e a pegamos ao colo.
Não sei o que terá sentido, e nas poucas palavras que balbucia, sei que nunca vou saber. Mas se aquele beicinho foi igual ao meu… Então acho que nunca mais.
Consequência, e a dolorosa tomada de consciência:
A consequência maior desta aventura foi a tomada de consciência de que hoje, precisamos nós tanto dela, como ela de nós. E que para o ano,… bem, para o ano logo se vê. O melhor é ser a mãe a comprar os bilhetes de avião, não vá eu lembrar-me de alguma parvoíce.



