terça-feira, março 20, 2007

Capitulo IX – Achas que vou ter saudades?

Não vou dizer que algum dia pensei que seria fácil. Mas a verdade estava para alem do imaginado. Foi quase como se estivéssemos perante uma nova fronteira, um desafio até então impensado, algo de tão tortuoso e impossível de suportar, como também necessário após 18 meses de noites mal dormidas.
A decisão, essa…, teve várias fases, que eu classificaria como: a ideia, a tomada de decisão, a acção, a consequência, e por fim… a dolorosa tomada de consciência.

A ideia:
- Este ano quando formos para a neve, levamos ou deixamos a Mafalda?
- Ela foi o ano passado, porque é que deveria de ficar este ano?
- Ela não vai fazer ski, não aproveita, não se vai lembrar, e para mais depois nós também vamos ficar limitados e não aproveitamos.
- Lá isso é verdade,… sim acho que se diverte mais se cá ficar com os avós. E achas que ela vai chorar?
- Um pouco! Está muito apegada a nós. Até lhe vai fazer bem, sabes.
- E saudades? Achas que vai ter saudades?
- Claro, ainda é pequena, e muito dependente de nós. Mas nós telefonamos e falamos com ela todos os dias, não te preocupes, também é só uma semana. E para mais precisamos de dormir, descansar um pouco, como ela anda com os sonos trocados e a acordar de noite, fazia-nos bem sabes..
- Então está bem. Marca tu os aviões que eu marco os hotéis.

Tomada de Decisão:

- Já reservei o hotel, pelo sim pelo não, como não estou muito confortável com a ideia mandei colocar o berço no quarto.
- Fizeste bem, olha, já comprei os bilhetes de avião. Pelo sim pelo não, não fosses tu mudar de ideias, comprei sem contar com a Mafalda, o melhor e acostumares-te à ideia que este ano vamos sem ela. Depois quando for maior logo se vê.

Acção:
Esta poderia ser subdividida em fases, e sem duvida começa com a partida a caminho do aeroporto. Ainda nem 2 kilometros haviam sido percorridos, e enquanto a Mafalda dormia calmamente na sua cama em casa dos avós, havia lágrimas de saudade que escorriam pela face.
- Tem calma, são só uns dias e vais ver que é bom para descansar.
- A CULPA É TUA, NÂO TINHAS NADA COMPRAR OS BILHETES DE AVIÃO SEM ME CONSULTAR.
- Não achas que que estás a ser injusta?
- ACHO! MAS A CULPA É TUA NA MESMA…..Tens razão, isto já passa.
Depois, deste ponto em diante, foram 7 magníficos dias de descaso, e sem qualquer ansiedade.
- Olha…
-Sim?
- Coincidência, uma criança da idade da Mafalda no aeroporto. Achas que ela ainda está a dormir?

Mal o voo aterra em Genebra, e ainda antes de levantar as malas e os skis da bagagem seguiu-se a habitual chamada para casa a dar conta da viagem, e de que tudo correu bem.
- A Mafalda já acordou? Dormiu bem? Perguntou por nós? O que ela está a fazer?
- Está tudo bem, e vocês onde estão?
- Chegamos agora a Genebra, está tudo bem, Mas não respondeste às minhas perguntas? Aconteceu alguma coisa? Ela está a chorar?
- Esta tudo bem, ela está a brincar com a tua irmã, e satisfeita da vida. Quando acordou perguntou pela mãe, mas mais nada.
- Mais nada? Como está tudo bem? Ela não está queixosa, nem molezinha, pois não?
- Não, porque perguntas isso?
- Não perguntou nós. NÃO PERGUNTOU POR MIM!!! Pergunta-lhe se ela quer falar com o pai, passa-lhe o telefone.
- Mafalda, queres falar com o Pai?
- Nãaa (aliás esta marcação de posição foi uma constante ao longo dos 7 dias que se seguem).

Depois é claro que existiu, um novo impacto. Após 3 horas de viagem de comboio, e depois de me cruzar com enumeras criancinhas da mesma idade, chagamos ao hotel e fizemos o check-in. Papeladas á parte, entramos no quarto, e é claro, lá estava, o berço que ninguém mandou retirar do quarto.
- Estás a ver! As camas que eles usam para os bebés até são jeitosas. Eles têm um nível de serviço…

Convém referir que o Hotel era o mesmo onde cinco anos havíamos passado a nossa lua de mel, como tal estávamos plenamente consciente do nível de serviço.

-Eles já cá vêm buscar o berço.
- SIM, EU SEI!!!

Depois foram sete dias, onde todas as crianças que se cruzam connosco nas pistas e na vila de Gstaad, nos fazem lembrar a Mafalda…

- Olha, para o ano a Mafalda vai ser assim?
- Que giro que eles ficam naqueles fatos!!! Aposto que vão ficar muito bem à Mafalda.
- Eles aqui começam cedo. Quando a Mafalda tiver três anos, vamos também inicia-la no ski.
- Este chocolate quente é muito bom!!! Pena que a Mafalda não pode ainda beber leite inteiro nem chocolate.

Mas a parte mais dolorosa, é ao jantar ver as famílias reunidas em torno daquelas mesas, com as crianças a chamar pelos pais, a interagir com eles. A nós resta-nos o telefone e descobrir as novidades que nos iam sendo relatadas á distância na evolução da pimpolha.

Por um lado descemos as encostas das montanhas e distanciamo-nos do dia a dia. Por outro, todos os pormenores que nos rodeiam, trazem a memória aquele meio palmo de gente. Mas no fundo, penso que aqueles dias acabam por ser bons e importantes para nós que fomos, e para ela que ficou.

Resta apenas uma aventura, que começa na noite antes do regresso. E a aventura, é exactamente “ O regresso”.
- Como será que ela está?
- Melhor que nós. Pelo que dizem anda lá de um lado para o outro, sem grande preocupação, de tempo a tempo pergunta por nós.
- Como achas que ela vai reagir. Quando nos vir?
- Não sei, o melhor e irmos com calma para não a stressar.
- Sim eu sei.

Depois seguiram-se 3 longas horas de comboio, e mais duas de avião.

- Se quiseres vai andando lá para fora, para ir ter com a Mafalda, enquanto eu espero pelas malas.
- Não, deixa estar, eu espero aqui contigo pelas malas.
- OK, mas então tira esse sorriso de ansiosidade da cara.
- Não percebo…
- Tens a certeza que não queres ir andando.
- ……………………….Não. Eu espero.

Após os trinta minutos á espera das malas e dos skis, o inevitável aconteceu. Á medida que caminhávamos para a porta de saída, e que a adrenalina subia, batia forte no peito, o nome da pequerrucha, chamando intensamente pelo seu nome.

Para quem conhece o Aeroporto de Lisboa, existe uma porta em vidro que separa os que partiram e agora chegam, daqueles que cá ficaram. De tempos a tempos essa porta abre-se, deixando passar os sons de um mundo para o outros, bem como deixando que por alguma nesga entre a multidão que regressa junto dos seus, posamos por breves instantes espreitar para o nosso futuro, e procurar.

- Paiiiiiiiiiiii!
- Pai???? Eu juro que ouvi pai, antes da porta se fechar. Era a Mafalda.
- Onde???

E novamente a porta abre-se….

- Ali, bem de frente!
- Pai!!!!!

Neste momento, a mãe essa transforma-se, como se algo que lhe saia do peito a fizesse reagir apenas por impulso, descontroladamente, enquanto eu dizia-lhe:
- Tem cuidado com o senhor, olha que lhe atirar a malas ao chão!!! Ainda bem isto não é uma estrada, se não… tinha atropelado um carro.

Depois a Mafalda, fintou-nos os olhos, calou-se… Neste momento a mãe já a tem no colo. Eu com a minha calma, mundialmente reconhecida, já havia abandonado os skis e as malas, e juntei-me ás duas. E nesse momento, …, um pequeno beicinho, sem lágrimas, o olhinho para baixo, e vi o nervoso miudinho que a percorreu quando nos viu e a pegamos ao colo.
Não sei o que terá sentido, e nas poucas palavras que balbucia, sei que nunca vou saber. Mas se aquele beicinho foi igual ao meu… Então acho que nunca mais.


Consequência, e a dolorosa tomada de consciência:

A consequência maior desta aventura foi a tomada de consciência de que hoje, precisamos nós tanto dela, como ela de nós. E que para o ano,… bem, para o ano logo se vê. O melhor é ser a mãe a comprar os bilhetes de avião, não vá eu lembrar-me de alguma parvoíce.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Capitulo VIII – Do bacalhau às passas

Passou mais uma época de euforia, com aproximadamente !$#”&%#” €uros gastos.
Este ano, teve um sabor especial.
É verdade que nem tudo o que queremos comprar, chega a ser comprado para ver aquilo que imaginamos que será a reacção da Mafaldinha a abrir as primeiras prendas de Natal, resta-nos imaginar.
Claro que numa criança de um ano de idade, juntamente com o Pai Natal vem o João-pestana à boleia no trenó. E a comprovar esse facto, à Mafalda dorme 15 minutos após a abertura da última prenda. Na realidade penso que já dormia algum tempo antes, nós é que com a excitação do momento não nos demos conta, nem deixamos que ela fechasse os olhos. É verdade que não utilizamos palitos para impedir que os olhos se fechassem, mas todos esperam ver a reacção, a euforia a abrir prendas,…
O que se obtém na realidade é um ar de espanto por parte da criança, face a tamanha loucura por parte dos mais crescidos e adultos (se é que os há nestas alturas), e o consolo que afinal apesar de não podermos comprar tudo o que vemos, contas feitas, não lhe falta nada, e que para o ano, já com dois de idade, e euforia vai ser muito maior.
Mas na realidade este ano as coisas foram muito diferentes. Todas as prendas são compradas com um afinco diferente, saboreia-se todos os momentos do Natal desde a sua preparação. A Arvore de Natal utilizada, sendo a mesma parecia diferente, talvez pelo toque de Midas que a Mafalda deu ao evento ao ser ela a colocar a estrela no topo, ou então pelas bolas quebradas. Depois com o passar dos dias outros foram os fenómenos, a curiosidade quanto às prendas que os outros irão comprar, as prendas abertas antes de tempo, oito no total se contabilizarmos as que a cadela abriu. A noitada do costume a embrulhar as lembranças, que menos de 24 horas depois vão estar desembrulhadas, e sem que nos apercebamos como o tempo voa, já percorremos as capelinhas a entregar prendas, e gladiamos fervorosamente com uma posta de bacalhau, grau e batatas, desembuchado por um copo de vinho e pela excitação do momento que se aproxima. A Mafalda, essa já havia comido, e percorria o pouco espaço da sala, lotado por familiares, á procura dos seus brinquedos, espalhados ou temporariamente controlados pela prima da mesma idade. Neste momento, dou comigo a pensar onde estão as crianças, enquanto alguns elementos “mais maduros” gritam pela sala, que faltam 30, 20, 10,… minutos para a meia-noite, de olhos na Mafalda e na prima, esbugalhados pela euforia.
As crianças, essas, assistem incrédulas e até um pouco assustadas, à ode dos adultos que as rodeiam.
Meia-noite! Meia-noite! Meia-noite! Meia-noite!, bem, quer dizer,… este ano deveria mais ter sido Meia-noite e cinco! Meia-noite e dez! Meia-noite e vinte!...As anciãs da família haviam acabado de distribuir as prendas pelos sapatinhos e convidam os restantes a desembrulhar as mesmas com os cânticos de Natal que enaltecem a época. E começa…
Claro que a Mafalda não sabe ainda abrir as prendas sozinha, apesar de ensaiar um ou outro rasgar do papel, E mesmo que soubesse, tenho algumas duvidas que a mãe deixasse, tal era a sua euforia a abrir as prendas da filha.
E uma hora depois tudo lá estava no sapato da Mafalda. A Saia, a camisola, a outra camisola, as calças, o casaco, o outro casaco, a outra saia, os sapatos,… O Noddy, a mochila do Noddy, a carteira do Noddy, o tapete do Noddy, o carro do Noddy não porque os avós deram-lhe um mês antes. Depois é claro vem o Nenuco, mais o carrinho do nenuco, a caminha do Nenuco, e mais um boneco que não sendo um Nenuco é da mesma marca do Nenuco, igual ao Nenuco, mas tem pilhas e chora, e não é o Nenuco. E se alguém quiser ou estiver interessado em atolhar ainda mais o quarto (a casa) da Mafalda, este também tem cama, berço, carrinho,… e é diferente porque não é o Nenuco.
Para o fim vem a prenda especial dos pais. Aquela, a tal, e mais que tudo, com a qual até à data ela já teve tempo para brincar por ai uns 15 minutos, ou mais.
- Estás a ver Mafalda, a caixa é grande!
- ????
- Abre!
-???
Assim, olha rasga aqui o papel, assim!
-E o ar de espanto a olhar para os pais abrir a prenda que eles próprios compraram continua.

Pergunto-me o que lhe terá passado pela cabeça.
-Vocês não estão bem! Então eu vi vocês a entrarem em casa com isso! Não se lembram do que compraram? A vossa euforia não é normal e eu estou a ficar preocupada.

Mas o melhor ainda estava para vir, o embrulho esta desfeito, e o caixote que era maior que a Mafalda todo descoberto, o Pai (eu), com um ar vitorioso pela aquisição que havia feito (a prenda, a tal, a que iria fazer a diferença, e transformar o Natal da Mafalda memorável pelo menos por…um ano), abre a caixa de cartão que tem a imagem do brinquedo do lado de fora, mete o braço dentro do caixote para o tirar para fora, e exclama:
- Vem desmontada!... A mota vem desmontada!!, Não acredito que vou passar o dia de amanhã a montar a mota.

Sim era uma mota eléctrica para a Mafalda andar, e vinha desmontada. E na caixa dizia Made in China. Estava lá escrito, como é que não vi???

A Mafalda não se importou muito, entre morder cartão e papel, e manusear resto dos brinquedos, lá aproveitou os 15 minutos que se seguiram até finalmente adormecer, de exaustão.

Todos tinham as suas prendas abertas, e começam as perguntas da praxe:
- Gostaste da minha?
- Gostaste mesmo, olha que podes trocar!
- Vê lá, se quiseres trocar,…, já sabes estás a vontade.

O Pior é quando algum nos diz que já tem igual ou que não serve, e pergunta se podemos fazer o favor de trocar. Não é por nada, é só porque,…, onde raio é que meti o talão da compra?

Por isso é que sou a favor das prendas generalistas. Aquela que ninguém irá pedir para trocar, como os lenços, as meias de tamanho único, os perfumes, e livros de autores tibetanos que só se compram por encomenda porque vêm escritos na língua nativa acompanhados por duas barrinhas incenso…

E já com a Mafalda a dormir e com a noite feita e bem passado, rodeado por muitos dos que nos são mais queridos, ocorre-me e pergunto-me, quantos de nós se lembraram do espírito de natal, do menino Jesus. Quantos de nós se lembraram por 5 minutos que sejam que o Natal é muito mais que a euforia das prendas e do bacalhau.

Já de regresso a casa, enquanto a mãe deita a Mafalda, vou passear a cadela (e não é em sentido figurado) que estava aflitinha, e descarrego o carro numa missão que parece não ter fim. Quanto ao arrumar as coisas… isso fica para um dia destes, porque nessa mesma manhã (e já eram ai por volta das 4h30m), em casa dos outros avós, ao almoço, nova saga de igual proporção e de igual desfecho espera esta criança, que continua sem perceber o que nos está a acontecer.
Nova almoçarada, agora com cabrito, que se arraste pelo dia e noite a dentro, e restam 3 dias para arrumar (ou espalhar pela) casa tudo que de novo veio às nossas vidas.
Contas feitas… Sem duvida que este Natal foi especial, mesmo não se lembrando dele quando for maior, sinto-me realizado por o ter proporcionado à minha filha.


Quarta-feira, estamos a 5 dias do ano novo, e começam os preparativos.
Desta feita lá em casa, porque com miúdos pequenos as melhores passagens são em casa. É mais fácil tratar deles, temos tudo á mão, controla-se mais facilmente o ambiente envolvente, e podemos deitar a criança quando estiver cansada, certo?
Errado… a criança para começar, ainda está eléctrica no rescaldo do Natal, e como consequência ás 3h da manhã ainda está acordada, e eu pergunto-me o que terão misturado no biberão da petiz.
A casa, essa fica de pernas para o ar, mas a satisfação do momento. Do primeiro ano, das primeiras passas, com a Mafalda do nosso lado sem dormir, já deixam antever alguma nostalgia quando começar a pedir para ir passar o Ano com os amigos (lá para os 27).

Os dias seguintes resumem-se a uma tentativa vã de arrumar as coisas, e de regularizar os sonos de uma criança que quer estar acordada às duas e três da manhã, e não percebe porque há alguns dias podia e agora não.

Mas as melhores prendas de Natal, vieram depois do Ano Novo, com um expressivo mãeiiiiiiiiiii e um sonoro paiiiiiiiiiiiii que ecoa pela casa, sempre que nos quer chamar.

Face a isto, estou certo, que aquela algarviada que entoa, na qual algumas palavras se vão começando a perceber, como avô, avó, pão, água, ca´ne, ´tata. Significam algo como:
- Vocês são os meus heróis, e 2006 foi um ano excelente, obrigado paiiiiiiiiii e mãeiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Estou certa, que com os avôs e com a avós, havendo agua, carne e batatas, vamos ter um excelente 2007 todos juntos, porque eu sou a melhor prenda de todos os vossos Natais, e vocês são a minha continua esperança de um excelente Ano Novo. Boas Festas.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Capitulo VII – A Grande aventura

Passou-se algum tempo, e como em tudo na física, na realidade nada se perde e nada se ganha, mas tudo se transforma.
Pensei muito qual seria o facto mais significativo, mais marcante e que devesse ser enaltecido.
Foram os anos, e o Baptizado, que recentemente marcaram os últimos meses. O grande acontecimento, a grande festa em que juntamos família e amigos mais chegados. No entanto, se o Baptizado é algo que devemos viver espiritualmente, na fé. Já os anos é algo com direito a vídeo reportagem, fotografias que ficam para a posterioridade.
Aqui pretendo apenas relatar os grandes acontecimentos, aqueles que nos arrepiam a espinha, mesmo sabendo que irão acontecer um dia, mas que por mais imprevisíveis que temporalmente sejam, marcam-nos e apenas os conseguimos captar na nossa memória, longe das comeras. Aqueles que as nossas memórias fotografam detalhadamente, e por vezes até os embelezam, aperfeiçoando a acção ou o cenário, dando um carisma maior e ainda mais intenso à situação. E foi isso que ontem aconteceu…
É verdade que já havia uns ensaios, uns ameaços, no entanto ontem…
Íamos nós numa destas longas caminhadas em que a sua minúscula mão agarra fervorosamente o nosso gigante dedo, como meio de se manter de pé, numa velocidade estonteantemente lenta para nós, e extremamente rápida para ela, quando no meio de uma pausa da caminhada, entre prova de gorros e desarrumação de prateleiras de uma loja de roupa para crianças cujo nome começa por “Z” e acaba em “ara Kids” em pleno fórum Montijo se iniciou a grande aventura…
Tal como eu dizia, por vezes embelezamos os cenários, e a beleza da coisa é que realmente neste caso a acção se passou nesse local. No entanto, desse ponto em diante, alguns pormenores podem-se confundir com a realidade…
Acredito que a acção de impacto foi rápida, no entanto continuo a reviver a mesma, vezes sem conta, ouvindo em pano de fundo na minha cabeça, Vangelis. Plagiado (na musica e velocidade da acção) do filme Momentos de Gloria, vejo o abanar da mão esquerda, depois de derrubar os sapatos que ainda existiam na prateleira em simultâneo com o meu dedo que se liberta da minúscula mão…
Primeiro impacto, a supressão de ar que senti, pela sensação que iria cair ao libertar o meu dedo. Depois, veio o meu olhar fixo no espaço de 1 cm que medeia a sua mão do meu dedo, depois, a angustia, a alegria, a saudade de momentos que acabaram de ser rompidos contrastando com a alegria de ver a Mafalda á procura da sua independência, da sua autonomia. Como que sentindo o cordão umbilical ser cortado (aquele que não temos, apenas destinado às mães), senti que uma nova era esta a nascer, uma nova etapa se iniciava.
Os seus olhos abriram-se e olharam primeiro para as nossas mãos. Depois, um movimento de cabeça, e os seus olhos fintaram-se com os meus, sem abrir a boca e dizendo, desta vez eu consigo. Desta vez eu arrisco. Novo movimento da cabeça… olhando em frente… posição erecta… erguendo o pé esquerdo suavemente, e pousando o mesmo com firmeza. Não há retorno, há que seguir em frente mostrar que se está pronto para novos desafios, levantamento do pé direito, ligeiro desequilíbrio, pé no chão com firmeza, o mundo está conquistado, os nossos corações batem aceleradamente pela excitação do momento, o meu enche-se de alegria, enquanto o meu dedo palpita ainda sentindo a sua mão já descolada. Sei que muita outras vezes ainda vou sentir esta mesma sensação. Que muitas serão as vezes em que a Mafaldinha irá largar o meu dedo para partir à aventura, no entanto ente momento foi único.
Um ultimo olhar para trás como que se despedindo da família e amigos, e acompanhada por um grito guerreiro que ainda ecoa pelos corredores do centro comercial, como que dizendo abram alas, deixem-me passar que ainda me estou a iniciar nesta nova actividade, e lá foi, partiu.
Claro que a segui de perto, a apenas alguns centímetros de distância, enquanto deambulava pela loja e corredores. Se me perguntarem o porquê não sei dizer. O correcto seria dizer, que foi por medo que ela caísse, porque as crianças não devem estar sozinhas. A verdade… por saudade, ainda pedindo ao tempo que voltasse a trás para poder viver aquela sensação mais um bocadinho. Por orgulho, de ver a minha filha iniciar esta sua nova fase. E por vaidade de me ter deixado participar em tal momento.

Capitulo VI – PÁPÁ

PÁPÀ…
Sou eu.
Ou pelo menos quero acreditar que esse é o objectivo do som pronunciado.
Na realidade, o som pode ir desde um qualquer monossílabo pronunciado com um qualquer intuito desconhecido, até à necessidade de comida.
Mas porque prenuncia ela o som quando estou presente? Porque enquanto olha para mim? E porque não para enquanto não lhe pego ao colo?
Entramos na fase engraçada em que para alem de começar a gatinhar a alta velocidade, agarrada ás mesas, cadeiras, camas e mais dolorosamente, pelos das pernas e do peito, levanta-se e tentar insinuar os seus primeiros passos.
Claro que o seu objectivo é sempre chegar a algo pegar num objecto, atingir o biberão. Na realidade, na maioria dos casos tem por objectivo um qualquer telemóvel ou um comando de televisão que garantidamente chegará á boca num muito curto espaço de tempo.
Se por detrás desta sua determinação está sempre um objectivo maior, porque não no PÁPÁ um reconhecimento de aconchego?
Ora veja-se. Quando a levamos á escola, todas as manhãs, quando está no colo, não quer passar para o colo da educadora. Sendo ela a pessoa com quem convive mais horas por dia, porquê? Porque tu és o meu PÁPÁ.
Quando está ao colo de alguém quer ir para o meu colo, porquê?
Porque tu és o meu PÁPÁ.
Quando chego á noite, um sorriso atravessa o seu rosto como que dizendo, bem vindo PÁPÁ.
Em fim, pode ser um som que representa qualquer situação, e com todas as justificações pedagógicas elaboradas pelos maiores estudiosos.
Eu como pai (babado), estou mais do que certo do seu significado.

segunda-feira, julho 10, 2006

Capitulo V – Nova fase

Com o passar dos meses, começam as gracinhas, e algumas das mais antigas deixam de ter o mesmo encanto. Na realidade, algumas delas deixam mesmo de ter qualquer piada.
A Semana passada, a Mafalda fez dez meses, como tal levamo-la a jantar fora, ali para o Meco. Decorreu maravilhosamente inclusive aquela parte em que ela se encantou com o Nemo florescente que a amiga do momento trazia pendurado nos pescoço. Uma menina de dois anos e meio, aproximou-se da cadeirinha da Mafalda, para mostrar o seu afecto pelo bebé. Claro que sendo muito mais crescida iria mostrar-lhe algum do conhecimento da vida que já havia adquirido. Enquanto a Carminho (Maria do Carmo) se fixava na Mafalda, e lhe fazia algumas festas nas bochechas. A Mafalda fixava-se no peixe, o Nemo, que teimava em piscar no pescoço da Carminho. Imaginava eu o momento em que a Mafalda o iria puxar, mas tal não aconteceu.

- Julgavam vocês que eu me iria jogar ao pescoço de uma catraia e gladiar-me por um pendericalho comprado momentos antes a um KÉFROU que por ali passou! Será que vocês se esquecem que eu já tenho 10 meses?

È verdade, nos últimos tempos aquela goela só encanta com os seu sonoros cânticos anti-cristais quando rendivica algo mais altivo tal como:

- Quero comer!
- QUERO COMER!
- JÁ DISSE QUE QUERO COMER!!!

Claro que tudo isto é dito naquela linguagem que desaprendemos quando crescemos, e que se torna desesperante quando somos pais adultos e não sabemos porque chora a criança. A essa linguagem, iremos chamar de incompreensível Bebenhês.
Claro que existem variações desse cântico, que vão do “Muda-me a fralda que está suja”, ao “Pega-me ao colo”.
De início, sempre que existe uma nova manifestação achamos imensa piada…

- Olha que giro, está a gritar a pedir água da garrafa! Achas que lhe dê?

Alguém imagina a vontade que tenho de responder, “Nããããããã! Deixa a criança morrer a sede…”

Mas é um facto, que com a chegada dos 10 Meses, e dos dentes, muitas são as entoações, que deixam os pais babados. No top dos últimos meses penso que veio o “Dá-me uma ameixa”. Mas muitos foram os que se seguiram como, “Põe-me de pé”, “Quero Brincar, e não importa que sejam 2h da manhã de quarta-feira para quinta-feira e que vocês amanhã vão trabalhar”, e o “Deixa-me puxar as orelhas ao cão”.

Tudo hits muito agradáveis, que foram adquirindo uma sonoridade mais heavy, com as versões:
-“Dá-me uma ameixa, ”;
-“Põe-me de pé, imediatamente
-“Quero Brincar agora, e não importa que sejam 2h da manhã de quarta-feira para quinta-feira e que vocês amanhã vão trabalhar”
-“Deixa-me puxar agora as orelhas ao cão”.

Tudo isto naquela sonoridade BUAAAAAAAAAAAAAA, que todos os pais tão bem conhecem.
Claro que para quem nasceu nos anos 70, como eu, não sendo muito amante do Heavy Metal, sim porque eu ainda balanço quando ouço a ponte de San Francisco…as flores no cabelo…, mas dizia eu que para quem não é muito amante do Heavy Metal, ver a Mafalda naquela posição hirta que ela adquire na sua cadeira, inclinando a sua cabeça para trás, e projectando a voz para o céu, de olhos cerrados, e ficando com uma tonalidade na pele entre o vermelho e o roxo, torna-se desesperante, e o “Olha já sabe fechar a boca e desviar a cara quando não quer mais papa”, “Tão linda a pedir ameixas…”, rapidamente dão origem as novas versões “*###$#&%#€ entornou outra vez a sopa”, e o “Já chega Mafalda, para de gritar que estamos a preparar a fruta”.

Ás vezes pergunto-me se realmente sabemos o que estamos a fazer, quando nos metemos nestas coisas de ser Pais?

Claro que esta nova fase, também é plena dos seus encantos, e descobrimos todos os dias coisas que nos vigorizam, por exemplo, depois de um elevado número de noites em que só acordava para beber o biberão à hora em que nos levantávamos para ir trabalhar, hoje, resolveu acordar uma hora mais cedo do que o habitual. Quer isto dizer que nos tirou uma hora de sono, e precisamente aquela hora antes do habitual despertar. Não a meio da noite, dando esperanças de ainda podermos voltar para a cama e dormir mais qualquer coisa, claro que isso seria demasiado trivial e pouco cruel. A hora escolhida foi precisamente aquela em que o retorno aos lençóis, mais do que impensável é impossível. A canção de alerta que ela entoava, o famoso BUAAAAA, pergunta “Quem te disse que já te podias habituar a dormir a noite toda? Quem te disse que tinhas voltado a adquirir o controlo da tua vida? Levanta-te e faz o biberão.”
Quanto a isto, não há volta.
E é no primeiro instante após consolarmos a sua necessidade, no preciso momento em que os seus olhos se cruzam com os nossos, que por um breve segundo se faz uma pausa entre os dois, e um sorriso vindo daquele palmo de gente rasga o nosso sono e nos desperta, como que dizendo…”obrigado papa, gosto muito de ti”. Claro nesse momento sorrimos, olhamos nos seus olhos que adormecem lentamente, enquanto se aninha nos nossos braços, pronta para dormir umas quantas horas mais. Em compensação, inchados pelo sorriso, damos inicio a mais uma daquelas noites de insónia, em que pensamos: ”- Ela sorriu!, tão linda,…Ela sorriu!!”. E certos que não vamos precisar do despertador para levantar, aninhamos acordados na almofada, aguardando inchados a hora de levantar.

Claro que com esta nova fase, também apareceram as entoações que gostamos de ouvir, aquela que adquirem o estatuto de gracinha. Uma francamente já me começa a cansar, e não adianta tentarem dizer que é dor de cotovelo, ou ciúme, porque eu estou certo que aquilo que ela diz não é Mamã, mas sim uma sonoridade possibilitada pela formação do palato, que lhe permite exprimir-se junto de todos. É certo que por norma só produz esse som quando fita a mãe nos olhos, que importa isso? É mera coincidência!!
Já aquele som profundo que ela exprimiu uma única vez, no meu colo, enquanto estava sozinha comigo, foi sem sombra de dúvida a primeira tentativa conseguida de comunicação. É há lá som mais bonito que Papá? Não percebo porque duvidam da minha filha quanto ao atingido nesse momento. Não te preocupes Mafalda, o Papá confia em ti.

Mas para mim, o ponto alto desta fase não é sequer o “momento gasosa”, quando num esforço considerável e soprando por entre os dois dentinhos que já romperam, tenta libertar em incrível esforço um Pssssssssssst, algumas das vezes acompanhado por um pouco de baba que lhe escorre pelo queixo, mas garantidamente acompanhado por uma linda careta fechando os olhos, como que nos dizendo: “Estão a ver como eu me esforço para que vocês me entendam? Estão a ver?”. Para mim o ponto alto chega com os infindáveis discursos em bebenhês, lembrando alguns dos elementos mais participativos da nossa sociedade, que tendo a capacidade de falar por horas a fio, não conseguem transmitir uma única palavra. Ganha a Mafalda pelo esforço em realmente tentar dizer alguma coisa, pelas ideias concisas, capacidade de transmitir novos pontos de vista, e pela articulação motora digna dos maiores comunicadores da história. Ganha a Mafalda por ser nossa filha, por a amarmos muito e por nos ter presenteado com esta nova fase e com as gracinhas que a acompanham. Obrigado filha.

Vocabulário aos 10 meses:

Mamã – ponto de discórdia familiar, para alguns, algo como Mãe, para outros, apenas uma articulação da língua junto do palato.
Papa – Palavra muito especial, só prenunciada até ao momento junto de pessoas de igual importância, eu.
Buba – Chucha;
Dá – Tudo o que esteja em tua posse neste momento, tem que passar imediatamente para cá, não vá eu abrir a boca. Aplica-se a tudo desde comida, aos mais variados objectos;
UU – Nome da nossa cadela (Zu Margarida);
ÁUA – A primeiríssima palavra, água (obviamente), entretanto já evoluiu para um mais sofisticado "ÁUGA";
ÓIÁ - que entretanto também já evoluiu para um correctíssimo e magnífico "Olá";Budababadudaba – O que vocês desejarem, aplicado por diversas vezes, em situações distintas e em contextos diferentes. Pode representar qualquer tema, e ser prenunciado vezes sem conta durante largos períodos até á sua exaustam e adormecer. Sendo uma capacidade que os nossos interlocutores políticos não têm. É fácil adormecer os outros, mas é muito difícil adormecermo-nos a nós mesmos (é muito á frente a nossa filha).

terça-feira, junho 20, 2006

Capitulo IV – O Mail enviado a toda a gente

Depois de sair do hospital, em fim de primeiro de dia como pai, custou-me a deixar as duas para trás naquele quarto de hospital.
Como será que vão passar a noite? Como se irá sair a mãe nesta primeira noite? E a filha? Ainda tem pouco mais 10 horas de vida, e afastar dela já deixa saudade.
Decisão tomada, depois da mensagem enviada por telefone a mais de 50 pessoas, eis o grande momento de enviar um mail a todos aqueles que conheço, ou que por um acaso conheci…

----- Original Message -----
From: XXXXXXX
Sent: Thursday, September 08, 2005 1:57 AM
Subject: Primeiro dia como pai

Neste dia aparecem todas as duvidas do mundo...
1º colocam a criança nos nossos braços, duvida numero 1... onde estão as pilhas?
Depois ela chora... duvida numero 2... onde está o botão do volume?
E o dia continua com todas as perguntas para as quais não temos resposta...
Ela agora está a chorar porquê?
Será que realmente já reconhece as vozes?
O que será que sente?
Porque é que estou a olhar para ela com cara de parvo e emocionalmente descontrolado para não dizer que estou a chorar?
Porque tenho necessidade de dizer a toda a gente que é a minha filha?
O que será que ela sente quando esfregam o nariz na sua barriga enquanto abanam a cabeça a dizer bidu bidu, patati patatu?
E muito mais importante, porque é que quando eu choro não me metem uma teta na boca?

E há coisas para as quais não temos resposta mas temos muita vaidade em as dizer ou ouvir...
É parecida com o Pai.
Tem o nariz da mãe.
É Linda....

Há aquelas que consideramos completamente escusadas....
Vá lá, é perfeitinha (pois claro é a minha filha)
Não é parecida com nenhum dos dois (mau maria.....então é parecedia com quem?)
Deixa a chorar que é bom sinal (é... é sina de quê? que tem voz e pulmões ou fome)

E há aquelas que temos vontade de gritar bem alto para todos ouvirem....
BEM VINDA MAFALDA, SOU O TEU PAI, E ACONTEÇA O QUE ACONTECER VOU ESTAR SEMPRE AO TEU LADO PARA TE AMAR, MIMAR E PROTEGER.

P.S. - Se quiserem mais fotos tenho aqui muitas :-)

XXXXXXX
(um pai babado)

Capitulo III – Momentos (Dedicado à mãe)

Definir momentos!?
Momento é algo que ocorre num espaço temporal e que pode ou não ter consequências no futuro. Podem ser bons, maus, felizes, infelizes, curtos, longos, sentidos, sofridos, adjectivados de tanto e tão diferenciado modo quanto a nossa imaginação o possibilite.
Mesmo quando dizemos que não têm consequência futura, de algum modo ditam o nosso futuro, nem que sendo pelo simples facto de que mesmo momentaneamente terem existido. Lógico?
Talvez aparentemente não seja lógico, mas vamos parar por um momento…para pensar sobre o conceito.
Acabar o curso, casar, ter o primeiro filho, por certo a maior parte dos elementos da espécie Humana definiriam estes como os melhores momentos das suas vidas. Ao passo que o tempo dispendido na casa de banho a lavar os dentes, ou fazer a barba, como os menos significativos, tal como o conduzir, tomar o pequeno-almoço. Em alguns casos mesmo o diálogo é considerado um dos momentos mais irrelevantes do nosso dia a dia, e não nos apercebemos que são estas pequenas acções que potenciam e elevam a categoria de elegível aquilo que denominamos de MOMENTO.
Mais simples agora? Não me parece.
Vejamos ainda de um outro prisma…

Dia 7 de Setembro de 2005, acordamos de manhã como costume e dizemos bom dia…
- A que horas é a tua consulta?
- Ás 10 horas.
- Não sei porquê estou com a sensação que deveria ir contigo…, acho que vou contigo…, mas tenho uma reunião…fazemos assim…não vai dar, não posso faltar á reunião, se houver alguma coisa telefona que eu vou ter contigo.
- OK, grunf!!!
Até este ponto, ocorrem 3 adjectivos que definem o momento. Primeiro o diálogo, seguido da incerteza ou indecisão, e concluído com a concordância não desejada.
E qual é a importância deste momento em toda a acção e sucessão de momentos??

10h40m, a meio da reunião toca o telefone, desligo sem ver quem é, toca novamente e olho para o visor, sendo que vejo, tenho que atender…
- Sim…
- Olha… podes falar?
- Sim.
- Podes vir ter aqui ao Hospital? Está tudo bem, mas elas já não vão sair, vais ser pai… não sei mais nada por enquanto, mas penso que deverias de vir para cá porque vai ser agora…

Passamos ao segundo estágio de emotividade e podemos começar a analisar a importância do momento inicial.
Desta vez, o momento poderá ser definido como uma explosão interior de adrenalina que enche a alma, e em que se perde a racionalidade, para dar espaço ao emotivo. Deste ponto em diante, todo o momento ganha nova dimensão, e um novo significado.
Poderia ter acordado e sido preciso ao dizer vou ou não vou contigo, e por certo poderia ter condicionado a acção a um desenvolvimento diferente, face a tudo o que pensei enquanto me vestia, fazia a barba e lavava os dentes. Mas foi exactamente a decisão do primeiro momento, que me faz voltar a entrar na sala de reunião e dizer, “desculpem mas a reunião continua sem mim”, pego no casaco e saio porta fora sem dar grandes explicações aos restantes, enquanto caminho para o carro e penso…
-Como não saem do Hospital? Só deveria ser daqui a algumas semanas?
Novo telefonema, e…
- Mas está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Porque é que não saem do Hospital?
- Olha, está tudo bem, a Doutora mandou-me chamar para que fossemos buscar roupa a casa. Aquela roupa que as deveria acompanhar sempre que se deslocam para qualquer lado, não fosse o Momento chegar mais cedo…
- Sim, havíamos combinado que íamos tratar disso esta semana…
- Pois mas já não vai a tempo…
Sobe a adrenalina, aumenta o stress, algo não está a correr bem, o que se passa? Começa uma sucessão infindável de acontecimentos…
Correr para o carro, abrir a porta, ligar o carro, segunda circular, Vasco da Gama, IC32, várias chamadas telefónicas pelo meio, sempre com o auricular é claro.
-‘Tou?
-‘Tou!
-Vais ser avó!
-Eu sei…
-Não, vais ser avó agora!
-Agora?
-Sim, agora!
-Mas eu estou longe.
-Sim, mas vais ser avó agora!
-Mas porquê?
-Porque a médica decidiu que era agora, sei que está tudo bem mas decidiram que vai ser agora.
- Onde estás tu?
-Estou a caminho. Quando souber mais alguma coisa ligo.
-Mas, está tudo bem?
- Está tudo bem, quando chegar ao hospital ligo.
Desligo o telefone, e nova chamada:
-‘Tou?
- Sim?
- Passas tu lá em casa para apanhar as coisas delas que são para levar para o Hospital?
-Não te preocupes com isso, nos tratamos disso.
- Thanks.
Desligo o telefone, e nova chamada (bendito telefone)
- Falei agora com o meu sogro e ele disse que te estava a ir buscar para depois passarem lá em casa e apanhar as coisas delas…
-Estou aqui á espera dele, nunca mais aparece, é sempre a mesma coisa…
-Estou agora a passar no cruzamento da Moita, se quiseres volto para trás e vou lá…
-Deixa, nós tratamos disso….
Desligo o telefone, e nova chamada:
-Vais ser tia.
-Eu sei, a mãe já me ligou.
-Vens para cá?
-Não sei se consigo ir agora para aí, tenho que…
-Vens para cá?
-Tas sozinho?
-Não, mas gostava que viesses agora para cá.
-Qual o melhor caminho a esta hora? …

Desligo o telefone, toca o telefone… e este é o primeiro verdadeiro Momento.
Aquele que escrevemos com letra grande porque é deste que nos vamos sempre lembrar. Não se naquele dia demorei a decidir entre duas gravatas, não que ao fazer a barba pensei que deveria também eu ir ao hospital. Toda a sucessão de momentos torna-se pouco clara, pela pouca importância que ganham pela proximidade do MOMENTO 1.
-Escusas de vir a correr, porque já nasceu…
-Como? Mas eles não iam fazer uma cesariana?
-E fizeram, correu tudo bem, já tive ao pé dela, é parecida contigo…Olha, quando saíres de Lisboa, passa por tua casa e traz a roupa da menina, coitadinha não tinha cá a roupa e vestiram-lhe a roupa dos pobrezinhos…
-Já combinei isso, vão levar-nos a roupa. Eu para ir buscar a roupa tinha que voltar para trás, estou a entrar no Barreiro agora.
-No Barreiro como? Falei contigo há vinte minutos, estavas no Banco…
Aqui não posso falar da velocidade, dos piscas ligados, da mota que gentilmente se pôs à minha frente a abrir caminho desde a entrada da Vasco da Gama, até á saída do IC32, com a sirene ligada, sem nunca me ter mandado parar, nem perguntado o que se passava. Mas é verdade, Av. da Republica-Barreiro, pela Vasco da Gama em 20 minutos.
No momento em que desligo este telefonema já os olhos ficam brilhantes da emotividade. Ainda não a vi, mas nos curtos minutos que demorei a entrar no estacionamento do hospital, e a correr naqueles corredores, senti-me gradualmente a inchar num misto de vaidade, orgulho, e de uma sensação de dimensão e peso maior do que o corpo que me transporta, e no entanto, perante a ideia que “sou pai”, nunca me senti tão leve, como se flutuasse num plano humanamente superior.
As perguntas de mim para comigo sucedem-se… como será que ela é? Que será que ela pensa? Como estará a mais recente destronada da posição de mais bonita do distrito?
E no momento em que mal cabem em mim as emoções que sinto, ouço uma voz a dizer…
-Olá! Parabéns, dá cá um beijinho papá…
-Olá, obrigado, onde estão?
-Anda por aqui, deixa ver se é possível conheceres a tua filha agora,…, é mesmo parecida contigo.
Andamos mais uns quantos metros naqueles corredores, até á porta das salas de parto, entramos por uma porta,…
-Espera aqui. Deixa-me falar com a enfermeira para ver se a consegues ver.
Esperei, e vi as duas a conversarem,…, será que vai demorar? Que será que dizem?
De seguida entraram por uma outra porta, e nesse momento algo vindo de dentro me disse:
- É agora…Preparado?
E os dois ou três minutos que se seguiram, pareceram mais longe que toda a viagem que havia feito e que venho a descrever. E á medida que as portas se abriam em par, como que em câmara lenta ao som da musica dos momentos de gloria, um carimbo do tamanho do ego do pavão mais inchado rotulava a imagem e dizia.. MOMENTO, este é o verdadeiro Momento, o tal, o desejado, o esperado, o mais que tudo, e aquele porque todos os outros momentos são dignos de serem relatados, mesmo que momentaneamente irrelevantes adquirem aqui um justificação útil para a sua existência e uma parte da responsabilidade no desfecho da acção.
- Preparado?
Uns braços com um cobertor atravessam as portas já entre abertas, e no preciso MOMENTO em que avisto uma pequena cabeça, ainda como que húmida da piscina em que se encontrava, oiço uma voz, vinda ainda detrás da porta a dizer “olá Papá”, e que nunca irei perdoar, por ter conseguido que na fracção do milésimo de segundo em que olhei para aquela cara linda, tudo aquilo que eu vinha controlando, e que dizia que não iria acontecer, acontecesse. Emotivamente, não sei se naquele momento comprimi ou descomprimi, acho que ambos ocorreram em simultâneo, e o gatilho despoletado por essa simples frase fez correr pela minha cara, as mais deliciosas lágrimas que alguma vez derramei. Pensava eu que o sim dito quatro anos antes em uma Igreja de Alhos Vedros, com um efeito semelhante era impossível de repetir, quanto mais suplantar.
Erro, chorei nesse momento em que me convencia que ninguém consegui ver que estava a chorar, chorei quando perguntei pela minha esposa, chorei e tremi quando a peguei, sem nunca ter pensado que se podia tremer de alegria, chorei quando senti o primeiro toque daquelas pequeninas mãos, quando vi a boca a mexer, e a testa franzir, e a mesma vós dizia, lá está, é mesmo parecida com o pai.
E nesse dia tudo que de emotivo acontecia, a cada segundo que passava, me enchia, como que a cada segundo, a cada reacção, me sentisse mais completo.
Os curtos minutos que pude contactar com a minha filha, foram sucedidos por um período de algumas horas até á saída da mãe do recobro, e da filha da observação.
E posso dizer com orgulho, que em cada acção tomada, a cada pessoa que se aproximava, a cada telefonema efectuado, a cada contacto realizado, nunca deixei transparecer aquilo que sentia, nem deixei ninguém ver as lágrimas que me corria por dentro e por fora de alegria. Sim, porque eu sou um duro,…, e os duros nunca choram.
Que o digam a minha irmã quando chegou ao hospital, a minha mãe e o meu pai ao telefone, e no dia seguinte quando me viu, os meus sogros, e todas as pessoas que naquele dia se aproximavam de mim do raio de muitos metros. Mas mais que todos, que o diga a mãe, no momento em que saiu naquela maca da sala do recobro. Verdade seja dita, naquele momento era ela que tinha as dores, e a filha nos braços, mas quem chorava era eu.Ainda hoje, quando me lembro daquele MOMENTO, quando “vejo” o cobertor, os olhos brilham, e contenho uma lágrima.

domingo, maio 21, 2006

Capitulo II – A contestatária


Chega o momento de trazer alguma lógica a frases que vão tendo tanto de lúcido como de simples.
É falso que tenha nascido nos anos 50 na Argentina como forma de combater as injustiças da sociedade. Isso foi só uma apresentação do que iria acontecer em Setembro de 2005, quando a profecia se concretizou…
E com a mesma firmeza que a caracteriza desde o primeiro dia, reclama a atenção que entende ser lhe devida… e acreditem ou não a sua atitude sindicalista tem mostrado a força das suas não palavras, como que dizendo… ainda não perceberam que aqui, quem manda agora sou eu!? E no fundo é por isso, que sendo primeira filha de dois pais, primeira neta de quatro avós, e primeira sobrinha de uma tia, que todos nós gostamos tanto dela e damos tanta importância aquilo que ela não nos vai dizendo, mas que tão bem vamos já entendendo.

sábado, maio 20, 2006

Capitulo I – A alvorada

Quando me deparei com a vontade de escrever estas linhas, tantas eram as certezas que…
Sempre me disseram na escola que quando escrevemos temos de construir um enredo, e que esse enredo tem que ser bem localizado no espaço e no tempo. Aqui começam as minhas certezas. Definir a acção obrigaria pelo menos a ter certeza quanto ao facto sobre o qual iria escrever, bem como quanto ao local onde iria decorrer a acção.

Comecemos pelo o tema….
A certeza que tenho é que se apoderou de mim a vontade incontrolável de escrever algumas das frases que sendo simples fazem tão parte de mim como do meu imaginário.
Não prometo qualquer grau de honestidade quanto à veracidade dos factos. E não posso prometer porque neste momento desconheço qual será a sua base de veracidade. Acredito que ao longo das páginas que irei escrever se irá encontrar tanto de verdade como de imaginário. Não que o imaginário seja mentira, podemos definir como desejado, sonhado, ou até mesmo como cómodo ou incomodo, alegre ou depressivo consoante o estado de espírito que de mim se apodera quando escrevo.
Ainda quanto ao tema, posso garantir que o encontrei, ou que pelo menos encontrei modo do exprimir, pelo facto de estares a ler estas linhas. Sim, porque quer isso dizer que algum dia concluí as minhas frases simples e as publiquei, ou talvez não.
Para já, quanto ao tema poderei dizer que irei falar de mim, do meu imaginário, e da vontade de o partilhar.

O local,…
Esse poderia ser qualquer local do mundo, porque não conheço o enredo, mas tratando-se de mim, resume-se o local ao meu mundo, aquele por onde eu vagueio e onde sou senhor de certezas. Das minhas certezas.
É claro que estou a tentar falar da minha cidade, Lisboa.
Mas mesmo aqui não vou prometer grande rigor ou desenvolver grandes pormenores quanto à localização geográfica das coisas, porque na realidade, a minha cidade também não é minha. É um facto que nasci nela, sou um alfacinha. Mas sou um alfacinha que rapidamente se converteu aos poderes dos arredores, e que com apenas alguns dias de idade se transferiu para a mais bela localidade do mundo, Cascais.
Aqui sim em Cascais haveria muitas histórias carregadas de pormenores e detalhes que poderia escrever, garantindo um dos mais belos contos tragico-sentimentais do mundo. Mas nada disso, não estou aqui para falar do preciosismo, nem da objectividade. Procuro encontrar alguma lucidez para a insanidade em que vivo. Assim, culpo a cidade que tanto gosto, por ser responsável pela falta de conhecimento que tenho soube ela. A verdade é que entro e saio da sua vida todos os dias como um foguete. Todos os dias entro na cidade pelo acordar, empandeirado nas longas filas de trânsito que me levam ao centro. Todos os dias saio da cidade como um relâmpago, já bastante fora de horas, e com a noite a servir de companheira aos km que tenho pela frente.
Uso a cidade para saciar o meu stress, corro pelas ruas sem muitas vezes saber os seus nomes, as suas histórias, ou as figuras típicas ou que lhes deram nomes. Não que não me agrade ser detentor de tal informação, mas a realidade é que acabo por ocupar o meu tempo com outras informações, relevando para segundo ou terceiro plano esses detalhes.
Não sou nenhum energúmeno que não sabe onde fica a baixa, ou o chiado, e é claro que conheço a Av. da Liberdade, e sei subir dai ao Saldanha, passando por Picoas, seguindo pela Alfredo da Costa, 5 de Outubro, campo pequeno ou grande e Entrecampos, também fazem parte do meu domínio espacial.
Mas se me perguntam qual é o caminho para Marvila…está tudo estragado. Só há algum tempo descobri onde fica Carnide. Por isso alguma da localização poderá ser um tanto vaga quando eu descrever a acção.

Fazendo jus à tradição da escrita, por esta altura deveria de estar iniciar a apresentação de algumas das personagens, e na realidade já o fiz, apresento-me a mim como o individuo nascido aqui, mas aqui não criado, para todos LaConfidential ao vosso dispor.
E aqui nasce um tributo aos que nascem dentro e fora da cidade, e aqui fica um legado, se mais não poder deixar, à minha filha Mafaldinha a contestatária, a mais bela rapariga do distrito de Setúbal como diz o meu sogro, e à sua mãe a quem intimamente chamo de … algo que ela me proibiu de mencionar neste blog mas que tem a ver com feitiços, pois por certo só por feitiço um dia assentaria e casaria mesmo que sendo com a anterior detentora do trono de rapariga mais bonita do distrito.
Sim tributo, porque este blog tal como a minha vida, tem directa ou indirectamente tanto de mim como delas. Porque elas são o meu imaginário, e com elas no pensamento nascem deste ponto em diante as minhas frases simples.